Durante sua conferência na E3 deste ano, a Microsoft reforçou várias vezes o poder de sua iniciativa “Play Anywhere”. Através dela, jogadores que adquirirem um game no Xbox One vão poder ter a mesma experiência no PC (e vice-versa) sem ter que pagar nenhum centavo adicional por isso — basta ter uma conta registrada junto à empresa.

Além da vantagem financeira, o plano também oferece recursos interessantes como a possibilidade de usar o mesmo save nas duas plataformas e interagir com um meio-ambiente de jogadores mais unificado. Sob estas circunstâncias, é difícil se opôr aos planos da companhia, que parece estar “colocando o consumidor em primeiro lugar”.

No entanto, basta deixar de lado as camadas de marketing positivo e investigar um pouco a infraestrutura que torna isso possível para perceber que nem tudo é positivo. Embora a Microsoft afirme que sua intenção é aproximar o Xbox One do PC, há a possibilidade de que um movimento contrário aconteça e os computadores tenham que conviver com as limitações que hoje imperam no console — e isso não é nada bom.

Muros e grades

Uma das tecnologias que possibilita a iniciativa Play Anywhere é o sistema Plataforma Universal Windows (UWP), que gera polêmicas desde que foi implementado. Embora para o consumidor comum que simplesmente quer instalar um aplicativo essa solução pareça inofensiva, ela gera grandes preocupações entre desenvolvedores — especialmente entre aqueles relacionados aos jogos eletrônicos.

O principal benefício oferecido pelo UWP é possibilitar que, com alguns ajustes simples, uma pessoa crie um app que roda em desktops, tablets e smartphones com o Windows 10 instalado. Ao consumidor é oferecido um “pacote fechado” com limitações bem claras, incluindo a impossibilidade de verificar o que há dentro dessa “caixinha”.

O UWP é um sistema mais restrito que o Win32

O lado negativo disso tudo é que, ao contrário do que acontece com um software baseado no Windows 32, que você pode baixar através do Baixaki  ou pelo site oficial do desenvolvedor, qualquer aplicativo desse sistema tem que passar pelo crivo da Microsoft. Ou seja, a não ser que a empresa decida aprovar o que você fez e colocar seu trabalho na Windows Store, não há como disponibilizar arquivos do tipo para ninguém.

“Jogos em mundo aberto como Forza Horizon 3 existem porque os jogadores não podem modificar seus games, oferecendo uma mesma experiência para todos aproveitarem”, afirma Sean Hollister, da PC World. “A Microsoft também promete que os UWPs não vão contribuir para o ‘apodrecimento de bits’, em que detritos virtuais gerados pelo uso diário gradualmente desaceleram seu PC”.

“O lado negativo disso é que a Microsoft controla tudo, desde a venda de aparências adicionais para personagens até modos e conteúdos extras. E, claro, spin-offs feitos por fãs como Counter-Strike nunca vão acontecer com esse código fechado”, explica Hollister.

O fim dos mods é só o começo

Entre aqueles que alertam para os riscos trazidos pela Plataforma Universal Windows está Peter “Durante” Thoman, conhecido pelo desenvolvimento da plataforma DSfix que permitiu que Dark Souls se tornasse “jogável” no PC. Responsável pelo software de modificação gráfica GeDoSaTo, ele afirma que a solução da Microsoft não somente é limitada como também traz riscos sérios à comunidade de mods e ao entusiastas do PC em geral.

Gears of War 4 é um dos primeiros jogos do sistema Play Anywhere

Segundo ele, uma das desvantagens do UWP é o fato de a solução não contar com a mesma retrocompatibilidade do formato Win 32. Com mais de 20 anos de existência, a API (que também é um formato executável) serve como a base de construção de uma imensa variedade de programas e de todos os jogos presentes em serviços como Steam, GOG e Battle.net Launcher.

Eles não podem ser distribuídos e instalados facilmente sem usar a Microsoft como um guardião

“Uma diferença crucial entre os aplicativos da UWP e com o formato Win32, além de restrições de API, é que a interação dos primeiros com programas arbitrários — e até mesmo com os próprios usuários, como em termos de acesso aos softwares — é limitada em muitos sentidos. Eles não podem ser distribuídos e instalados facilmente sem usar a Microsoft como um guardião”, explica Durante.

“Pense nessa diferença um pouco como uma aplicação tradicional para o PC comparada a um app para iPhone. A primeira distribui seus arquivos em frente a você na forma de pastas que você pode explorar. A outra meramente instala e vive sua vida como um ícone em que você clica; você não vai desvender sua estrutura de pastas”, complementa.

Experiência anticonsumidor

Tim Sweeney, da Epic Games, é outro crítico ferrenho da ideia da Microsoft. “Se você tentar mudar seu sistema de buscas do Windows 10, navegador ou reprodutor de músicas, ou desligar suas novas propagandas invasivas de tela de bloqueio e ‘análises’, você sabe do que eu estou falando”.

“É uma experiência deliberadamente anticonsumidor: as opções estão lá, mas boa sorte em encontrá-las”. A crítica de Sweeney se refere ao sistema operacional em geral, mas ele direciona boa parte de seu descontentamento especificamente para a Plataforma Universal do Windows.

A Epic Games, desenvolvedora de Paragon, se opõe fortemente aos planos da Microsoft

Em uma entrevista concedida à Polygon, ele afirma que se o UWP se tornar um padrão, nada impede que a Microsoft deixe de suportar aplicativos que usam o sistema Win32. Com isso, ela poderia eliminar facilmente diversos concorrentes como o Steam, Origin, GOG e o próprio launcher da Epic Games do universo do PC.

A esperança aqui é que evitemos que o sapo seja fervido

“Há uma história em que... se você tentar jogar um sapo na água fervente, ele vai pular de lá imediatamente. Mas se você colocar ele na água fria e aumntar a temperatura lentamente, você pode fervê-lo e ele nunca vai notar que tudo está quente demais”, afirmou Sweeney. “A esperança aqui é que evitemos que o sapo seja fervido ao começar a pensar no problema e a lidar com ele em uma etapa inicial antes que ele se torne tão grave que a Microsoft e seus bilhões de dólares de valor de mercado simplesmente passe por cima de todos”.

Infelizmente, é difícil confiar na “boa-vontade” da companhia quando levamos em consideração algumas atitudes bastante invasivas que ela vem tomando em tempos recentes. Se inicialmente ela oferecia o Windows 10 como um upgrade gratuito para quem tinha versões anteriores, a cada atualização ela passou a tornar cada vez mais difícil adiar uma mudança ou simplesmente escolher não fazê-la — tanto é que muitos consumidores sequer têm ideia de como suas máquinas passaram do Windows 7 ou do Windows 8 para a nova versão.

Transformando o PC no Xbox

Em meio a essas críticas, é preciso reconhecer que a Microsoft está agindo de forma positiva em vários sentidos. A possibilidade de comprar um game somente uma vez e poder jogá-lo no Windows 10 ou no Xbox One é bastante atraente, e mostra um tipo de pensamento bastante avançado no qual as concorrentes não oferecem recursos semelhantes.

No entanto, quem observa esses mercados deve perceber que a empresa não está tomando decisões que visam a abertura de suas plataformas. Ela pode estar mais receptiva a estúdios independentes, mas não pense que a companhia cogita deixar que empresas como a Blizzard ou a Electronic Arts vendam jogos digitais fora dos limites estabelecidos pela Live.

A integração entre o Xbox e o PC é boa, mas o aumento de restrições não

“Notch escreveu seu game em Java, preso a um site, colocou um link de Paypal nele e disse ‘Clique aqui para baixar”, e agora ele é milionário”, afirmou Phil Spencer, chefe da divisão Xbox, em resposta às críticas de Sweeney. “Não há muitos ecossistemas em que algo do tipo pode acontecer”.

No entanto, o que Spencer parece não entender é que algo do tipo jamais aconteceria no Xbox One — por mais facilidade que uma empresa tenha em publicar no console, ela ainda precisa passar pelo crivo da Microsoft. O mesmo acontece com a Windows Store: se alguém conseguir se tornar milionário através dela, é certo que boa parte dos lucros obtidos vão para a casa do Windows.

A empresa não tem qualquer incentivo financeiro em abrir o Xbox One para que outras empresas vendam seus produtos de forma direta, mas tem muito a ganhar caso consiga “erguer paredes” no universo do PC. Afinal, em um universo no qual ela controla a plataforma-base e o meio de distribuir aplicativos e jogos, não há muito o que você possa fazer a não ser direcionar seu dinheiro a ela — e isso é um tanto assustador em um universo que só cresceu devido à sua liberdade.

Via TecMundo Games